Nunca foi
fácil conseguir admitir que essa pose de quem consegue lidar com tudo e
resolver qualquer problema que aparecesse era só mais uma tentativa de criar
uma armadura à minha volta que me fosse capaz de me proteger dos meus medos que
existem por aí. A verdade, porém, é que não é do lado de fora que vivem meus
demônios. E é essa luta que eu preciso enfrentar todos os dias.
Queria poder
viver uma vida que se descrevesse em um livro, daqueles que a gente torce pela
mocinha e termina a leitura querendo mais. Seria bom ser uma pessoa segura,
forte e certa de todos os passos, que tivesse certeza das suas escolhas e dos
rumos da vida. Gostaria de não sentir as coisas na intensidade gritante que eu
sinto, como se tudo fosse extremamente perturbador.
A minha vontade
maior é ser capaz de conseguir explicar o que se passa aqui dentro para quem só
consegue me ver do lado de fora. Mas como poderia fazer isso se, na maioria das
vezes, eu também não consigo me entender?
É difícil
demais viver em uma inconstância. E já pensei ser TPM, ser a crise dos 25 anos
ou inferno astral, mas o que fazer quando essa insegurança nunca passa? A
verdade é que às vezes eu acordo bem e me sentindo pronta para qualquer
batalha, mas a maioria das vezes eu só queria ficar na minha casa, deitada no
meu quarto – por mais clichê que isso possa parecer. A pior parte é que, por
sentir muito, às vezes não sinto nada. Vejo meus dias passando, as coisas
acontecendo e continuo aqui.
É horrível
estar inerte. É horrível estar vazia por dentro. É horrível não conseguir mais
sentir as pessoas, as coisas, as paisagens bonitas, as músicas profundas. É
horrível estar nessa situação, de verdade. E é mais horrível ainda não ter
coragem de falar para ninguém, com medo do que possam pensar e ficar tanto
tempo em uma atuação sem fim de quem está sempre com um sorriso no rosto, com
curtidas nas fotos de pessoas alegres, de risadas sem fim, de quem precisa
manter as pessoas firmes, mesmo que lhe falte firmeza em sua própria vida.
É contra os
inimigos que criei dentro de mim que luto todos os dias, tentando mostrar, de
alguma forma, o que se passa por aqui, mesmo para quem não faz ideia sobre nada
ao meu respeito. É para aprender a lidar com os tombos da vida, com os amores
mal resolvidos, com as amizades que terminaram sem nenhuna explicação, com os
foras que levei, com as incertezas no trabalho, com as angústias pelos planos
que furaram, por tudo isso é tanto mais, que eu ainda estou aqui.
E eu vou
assim. E vou lutando e levando cada dia de uma vez na esperança de que tudo se
resolva alguma coisa e eu acorde sabendo que eu estou exatamente no lugar que
deveria estar. Só mais um dia. Um de cada vez. Eu sei que não estou sozinha
porque ainda vejo outros caminhando ao meu lado e isso me traz gás para seguir.
Via: Entre todas as coisas



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