Lembro
como se fosse ontem, mas tem mais a ver com querer que seja amanhã. Confundo os
tempos verbais porque, no fundo, eu queria mesmo que o tempo retrocedesse – não pra viver tudo de novo, mas pra fazer tudo diferente.
Se hoje fosse amanhã, eu dançaria
conforme a música. Não tentaria acelerar os compassos e os nossos passos em
direção ao futuro. Dançaria dois pra lá, dois pra cá no escuro sem pensar em
andar de mãos dadas na praça. Teria dividido o sorvete sem a expectativa de
dividir uma casa, um cachorro e filhos. Declarado menos, sentido mais. Mesmo
que seja difícil pensar em entregar mais de mim, já que quando você bateu a
porta não sobrou nada. Teria te entregue o meu tempo presente, não a minha
expectativa para o futuro.
Não
teria me preparado tanto para ser alguém que você gostaria de ter e me
preocupado menos em parecer culta, engraçada, sexy-sem-ser-vulgar. Teria sido
mais eu e menos quem você procurava, porque só depois eu descobri que a sua
busca era por você.
Diria mais “não sei” e menos “eu
também”. Porque é nas diferenças que se descobre o mundo do outro e nas
semelhanças onde estão os mais frágeis perigos. Teria lido as suas obras
favoritas completas, não apenas buscado um resumo na internet para dizer que conhecia
este ou aquele personagem e te impressionar.
Não teria procurado o seu nome no
Google, no Facebook, no Instagram, no Twitter e até no site da Receita Federal.
Teria deixado os seus gostos (mesmo os duvidosos) e caretas para descobrir na
vida real. Talvez, com isso, não tivesse me sentido uma louca conhecendo alguém
que eu já conhecia tanto.
Deixaria que você conhecesse a minha
tristeza, já que é dela que eu gosto e nela em que eu sempre me encontro. É a
parte de mim que mais me envergonha e mais me fortalece, mesmo que me faça
parecer frágil. Eu queria que você me visse forte.
De todas as dúvidas em relação ao
que eu faria diferente, só tenho uma certeza: seria eu quem sairia pela porta
para nunca mais voltar. Porque você diz que faria tudo igual.
E eu, hoje, reconheço de longe quem vive para brincar com os sentimentos dos
outros.
Via Entenda os Homens



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