Ontem eu tatuei um
coração anatômico, daqueles distorcidos e feios que a gente finge não saber o
que é porque prefere achar que o original é aquele bem delineado, bem certinho,
sabe? E me lembrei de você.
Lembrei quando cê me
disse que já tinha passado por isso, que entendia como era ter um coração
partido. Entendia tanto que pegou na minha mão e balbuciou alguma coisa, não
lembro bem, foi entre um trago e outro e você não quis repetir, mas tenho
certeza que me dizia que não me escolheria num futuro próximo.
O futuro chegou,
sempre chega, por mais que a gente ache que tá longe.
Daí eu terminei a
tatuagem e quis desesperadamente te ligar. Mas calma, pra quê? Eu iria te ligar
pra ficar conversando sobre as coisas que eu sentia com você, você iria rir. Eu
iria falar sobre como qualquer outro cara é meio bleh, ou erra o jogo, ou até
faz alguma coisa certa, mas não é você. Eu iria falar um monte, a gente é amigo
agora, mas ia adiantar alguma coisa? Nada.
Você fez uma escolha –
e eu sou grato pra cacete por você ter me falado. Achei que você ia ser só mais
um que some e não dá sinal de vida, mas você voltou. “Pra eu não sentir ódio do
seu signo”, sei bem, continuo odiando aquarianos. Voltou e me disse que não
tinha me escolhido, fiquei sem reação na hora, mas quarenta e oito horas depois
passou. Aquele abismo e a falta de ar sempre passam depois que a gente admite
que já não tinha nada, não seria nada, não tinha futuro.
Dói pra caramba. Dói
saber que, mais uma vez, não escolheram a gente. O problema é justamente é
esse: não foi a primeira nem a segunda vez, foi só mais uma vez. Eu fui só mais
um cara que não foi escolhido, outro cara pegou o meu lugar. Isso aconteceu
hoje, aconteceu há dois meses, sempre acontece. Fui teu passageiro. E se tem
uma coisa desesperadora é pensar que. O pior sentimento pra mim é aquele de que
a gente passou em vão na vida de alguém. Nem um clique, nem um arroubo de
raiva, nada.
Passei em branco.
Talvez, por isso, eu
tenha pedido pro cara da tatuagem colorir meu coração. Por mais que eu tenha te
enterrado recentemente, eu não enterrei o sentimento de ser preterido. É
difícil de engolir, parece chá de giló com gorgonzola, sabe? Dessa vez não,
espero que nunca saiba, beber isso é horrível. Desce um gosto de vômito e uma
ânsia de entrar numa hamburgueria e devorar tudo o que vejo pela frente porque,
bem, desconto frustração na comida. E corro depois na esteira pra fingir que tô
chegando perto.
Mas ó, não te liguei
porque eu também não guardo mágoas. Você foi só mais um que não me escolheu.
Podia ter sido, porque eu gosto tanto de você, mas não foi. Queria ter te
contado da tatuagem, mas tem tanta coisa que a gente não precisa dizer pra quem
ama quando a pessoa não ama a gente de volta que deixei pra lá. Deixei a
vontade de te ligar e acabei nem sentindo a pele queimar durante a coisa toda.
De noite, a tinta escorria um pouco e manchava o braço, o cotovelo e o coração.
Ardeu um monte, foi difícil dormir. Mais difícil ainda foi entender se o que doía
era a tatuagem marcada na pele ou o fato de que eu só queria que tivesse sido
dessa vez, mas não foi.
Texto de autoria do Daniel Bovolento do Blog Entre todas as coisas



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